magazine de mode Portugais
Janeiro / Fevereiro 2011

 

Baptiste Debombourg, artista francês, cria obras de arte bem distintas e extraordinárias. Formado em Belas-Artes em França, tem a capacidade de utilizar diversos materiais, tais como o papel, o metal, a madeira, agrafos, taxidermia, vidros e penas, conseguindo retirar o que é comum da banalidade do quotidiano.

 

 

 

Quando percebeu que tinha este dom?

 

 

Nunca acreditei na ideia de se ser “dotado”. Claro que podes ter jeito para as artes, mas nada substitui o trabalho. Neste príncipio posso considerar-me um guerreiro. Sou um workaholic que nunca está satisfeito… Trabalho cerca de 14, 15 horas por dia em pesquisa, para explorar, para descobrir, para criar e para comunicar. Este interesse pela arte é uma vocação, uma fonte de preenchimento para mim. Mas também é algo que quero partilhar com os outros, por isso é uma reconsideração permanente.

 

 

O que é que o motivou a apostar nas artes plásticas?

 

 

Aconteceu por acidente. Apercebi-me bastante cedo que não conseguia aguentar o “sistema autoritário parental” e depois a autoridade da escola. E também descobri que não suportava a vida profissional: a rotina semanal, a hierarquia de “patrão e empregado”. Ao mesmo tempo, tenho de admitir que sempre odiei o termo “artista”. É demasiado mundano para mim. Mas durante a minha pesquisa e experimentações, conheci artistas, arquitectos e apercebi-me que provavelmente seria o melhor compromisso para mim, ser livre e útil para a sociedade. 
Finalmente, depois de me ter licenciado na Escola Nacional Superior de Belas Artes, em Paris, admiti que o termo ”artista” me servia, apenas se pudesse fazer aquilo que queria com as minhas mãos e com as minhas formas de expressão.
Tenho uma visão muito concreta do artista enquanto pessoa e da sua relação directa com a sociedade. O artista usa a sua sensibilidade para os projectos da sociedade – em espaços urbanos, por exemplo. Simplesmente projecta a ligação entre a vida e as pessoas. De um modo geral posso comparar o papel dos artistas na sociedade com o dos políticos, arquitectos ou sociólogos. Todas estas profissões têm um impacto no nosso dia-a-dia. 
Antes de qualquer coisa, o artista é uma pessoa que procura, contudo, isso não significa que seja alguém excluído ou que esteja fora da sociedade. Pelo contrário: tem de usar todas as suas qualidades, a sua percepção e o seu conhecimento da sociedade. Assim, os seus resultados de pesquisa beneficiam a nossa vida.
Por isso, penso que o trabalho dos artistas devia ser reconsiderado e integrado como todos os outros. O objectivo é viver numa sociedade mais inteligente.

 

 

Como foi o processo de descoberta da sua própria linguagem?

 

 

Interesso-me por tudo o que me rodeia… Por pessoas, pelo sistema em que vivemos, pela vida profissional, pelos empregos, pelos impostos, pelos supermercados, pelos restaurantes, pela sedução entre os seres humanos. No final, a vida é um teatro para os pobres e para os ricos. De alguma maneira, qualquer acção, qualquer objecto ou bocado de lixo, torna-se no receptáculo desse teatro. Sou mais curioso em relação às pessoas. A escolha do material vem depois e depende do local onde é suposto eu reagir. Depois retiro algo que me interesse da observação. Aquilo que me importa realmente é a paixão, seja ela qual for. Pode ser a pesca ou a arte. Para mim não tem qualquer diferença. O mais importante é ser-se capaz de usá-la para comunicar e transmitir isso aos outros. 
Trabalho muito com lixo, porque o vejo como a testemunha da nossa existência. E também com elementos impessoais que são produzidos em massa, como a mobília da DIY; cartão, cartões de compras ou armas. É uma forma indirecta de questionar o impacto e a influência que esses objectos têm nas nossas vidas; o uso e o comportamento a que dão origem e como nos levam a pensar de uma certa maneira.

 

  

Quais são as suas principais influências? Porquê?

 

 

Não me sinto influenciado por um lado ou por outro. O que acho realmente interessante é a energia e a paixão que movem as pessoas para uma actividade, os seus esforços para a partilhar com os outros, e torná-la surpreendente ou inacreditável.

 

 

Alguma vez sentiu algum tipo de incompreensão de outras partes quando decidiu seguir esta vertente profissional?

 

 

Claro! Sempre senti que o preço da liberdade é bastante alto… Se não pertences ao grupo maioritário, facilmente te sentes sozinho. Se pretendes contruir uma carreira artística, tens de encarar todos os obstáculos que podes encontrar no mercado artístico. Mas os riscos são uma boa maneira para te ajudar a reconsiderar o teu trabalho e a seguir em frente. É a vida!

 

 

As suas peças são muito apelativas. O que tenta provocar nas pessoas?

 

 

Aquilo que realmente me fascina na arte é a ligação entre ela e o ambiente, e também a forma como dá diferentes interpretações ao espectador. Tento sempre instalar um contexto no meu trabalho e basear a minha reacção nisso.

 

 

Qual foi o feedback mais interessante que recebeu?

 

 

Quando apresentei “Turbo” – uma instalação feita com uma parede reconstruida, depois de ter sido destruida. Foi a primeira vez em Sarajevo (Bosnia – Galeria 10m2 – 2007), a estreia foi muito intensa, porque deu origem a muitas emoções e gargalhadas. Fazia sentido esta peça ser apresentada em Sarajevo, pois era o centro geográfico, histórico e político da Europa.

 

 

Como é o processo de concepção de uma obra?

 

 

Normalmente trabalho muito no espaço onde será a exibição. Estou a falar de arte contextual, como Paul Ardenne refere no seu livro.
O meu trabalho é um desafio diário. Quando trabalho num local específico, não só é importante ser-se sensível em relação ao espaço como também em relação à pessoas que ali vivem. O meu trabalho faz-se com a ajuda dos outros. É muito importante considerar aquilo que podes aprender com os outros; como também é muito importante estar atento. A arte liga as pessoas. Independentemente do que fazes, deves criar relações com os outros. Se um fotógrafo quer uma boa expressão do seu modelo, tem de ser objectivo.
Não é o material que me interessa mais, mas sim aquilo que o trabalho provoca quando é observado.
Costumo trabalhar em vários projectos ao mesmo tempo para não ficar “asfixiado” por um. Neste momento há muitas ideias que estão a ser preparadas, mas algumas precisam de tempo para se tornarem possíveis.

 

 

O que é mais gratificante quando termina uma peça?

 

 

As reacções das pessoas afectam-me muito: às vezes um afirmação ou até um sorriso, diz se a peça está ou não a funcionar!
Ponho muita afecto no meu trabalho. Para mim, o afecto representa algo mais importante do que o amor. Existe qualquer coisa no afecto, que é igual, como nas relações entre a familia e os amigos. Os meu títulos são afectuosos e muitas vezes são também fantasias sobre força. Gosto deste tipo de fantasias, porque nos relembra quão fracos somos.

 

 

Onde prefere ver as suas peças expostas? Qual seria o local perfeito para uma exposição?

 

 

A situação ideal seria trabalhar com a vida quotidiana. Mas depois temos a realidade do mercado artístico. Como artista, tens de criar o teu próprio estilo enquanto pessoa, o teu próprio universo enquanto artista. A lógica do mercado artístico é diferente. 
Mas quando quero criar algo fora do mundo da arte, avanço aos poucos e poucos. Quando quero criar algo fora de um museu, começo imediatamente a encontrar grandes problemas. Este mundo artístico tem muito mais que ver com política do que com arte. Tem que ver com liberdade e com aquilo que é e não é esperado. Por isso, acredito que se fosse um pouco mais importante neste meio, podia fazer mais artwork noutro lado. 
Também é importante perguntar sobre galerias. Nós, artistas, temos vivido dentro do cubo branco desde os anos 60, 70. Quando destruo a parede da galeria, pretendo que se questione esse espaço de hoje em dia

  

 

Qual é o papel da arte na vida do ser humano?

 

 

“Art is making life more interesting than art” - Robert Filiou

Não consigo explicar melhor do que isto.

 

  

Um artista é diferente das outras pessoas? Em que sentido?

 

 

Penso que um artista é como qualquer outra pessoa, mas a sociedade fá-lo sentir-se diferente. O artista é entendido como alguém mais radical, mas pode usar esse rótulo para investigar melhor o que o rodeia. Geralmente, quando és livre para entender as coisas da maneira que queres, acabas por ser diferente, porque não estás limitado pelas restrições sociais da comunidade.
Quem é que realmente aceita a ideia de se ser diferente? Cada um de nós escolhe a sua própria forma de auto desenvolvimento. Não aceitares a tua forma, significa ser rotulado pelos outros, como doido, como artista, ou como ambos.

 

 

Quais são os projetos futuros?

 

 

Vou criar peças feitas por diferentes partes de vidro. De uma forma, podemos considerar este futuro trabalho como a continuação do “Palácio de Cristal”.
Mas este conceito de cristal que está relacionado com a transparência, com luz e com destruição, parece um pouco mais complicado de organizar do que todos os meus projectos. Assim, gostava de aproveitar esta entrevista para chamar a atenção de alguma empresa que se interesse por este projecto e tenha vontade de ajudar.

 

 

Texto : Claudia Sergio 

 

 

www.wonder-magazine.com

 

 

 

 

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